DRENAGEM LINFÁTICA MANUAL, POR QUE FUNCIONA?

INTRODUÇÃO

A técnica de drenagem linfática manual, idealizada na década de 1930 por Emil Vodder  difundiu-se no mundo todo, para diversas classes sociais e tanto para tratamentos  estéticos quanto terapêuticos.

Essa larga  difusão  e, diferentemente  de outros procedimentos estéticos, a longa permanência da técnica em vigor, certamente, traduz a eficiência de seus resultados, os quais têm sido pesquisados e divulgados por diferentes autores, desde os mais remotos tempos.

Este artigo pretende compilar conteúdos que justifiquem os resultados alcançados na aplicação da técnica de drenagem linfática manual.

 

METODOLOGIA

Foi realizada uma revisão bibliográfica com a utilização de publicações científicas utilizando a base de dados LIlacs, Scielo e livros de publicação nacional ou estrangeira.

 

DESENVOLVIMENTO

É muito comum ouvir a frase “ a drenagem linfática manual é maravilhosa” ou “ a drenagem linfática manual tem excelentes resultados”. Mas qual será o motivo de serem alcançados tantos resultados expressivos com o uso dessa técnica?

Importante relembrar que, para a Drenagem Linfática Manual ter efeito, são necessários a integridade do sistema linfático,  o correto entendimento do equilíbrio de Starling e um profissional que conheça e realize a técnica de forma correta.

Ao se fazer menção sobre a integridade do sistema linfático, chama-se a atenção para o funcionamento adequado dos vasos linfáticos, incluindo capilares, vasos pré-coletores, vasos coletores e troncos linfáticos. Esses segmentos precisam ter funcionalidade, motricidade e mecanismo valvular adequado para que sejam alcançados os melhores resultados.

O equilíbrio de Starling é a parte da fisiologia responsável pelo movimento dos líquidos corporais. É  composto de duas pressões distintas, a Pressão Oncótica e a Pressão Hidrostática, respectivamente pressão formada pela concentração de proteínas e pressão formada pelo volume de líquidos. O somatório dessas forças, será o responsável por fazer com que os líquidos movimentem-se do interstício para os vasos e vice-versa.  A correta aplicação da técnica de Drenagem Linfática Manual proporciona o aumento da pressão intersticial necessária para propiciar a movimentação do líquido do interstício para o capilar. Já que,  entre os fatores citados como importantes para o aumento do fluxo da linfa está as compressões externas.1

Além disso, o fator mais importante para a realização da drenagem linfática manual se concentra no fato de se ter um profissional capacitado a realizar a correta aplicação da técnica. De nada adianta os dois fatores anteriores se o conhecimento sobre a técnica manual for inexistente, pois proporcionará resultados ruins e ineficientes, trazendo a triste constatação de que  “ a drenagem não serve pra nada”, quando na verdade o problema está em quem está realizando as manobras.

Godoy e Godoy2 salientaram que diversos estudos, enfatizados também por Casley Smith, têm mostrado que uma técnica de drenagem mal executada é pior do que se nada tivesse sido feito. Acrescentam  ainda, que quando há um mau emprego da técnica é possível  causar danos aos pacientes, sendo importante, portanto que o profissional tenha atenção a este fato e evite causar lesões a quem procura melhoras.

Kubik e Kretz3 afirmaram que os vasos linfáticos estão envolvidos na formação da linfa proveniente do líquido intersticial e a condução da linfa em direção ao sistema venoso. Também acrescentaram que este sistema está posicionado paralelamente ao sistema sanguíneo, seu início acontece na periferia e o curso dos vasos pré coletores é interrompido pela interposição de linfonodos.

Os capilares linfáticos possuem células endoteliais sobrepostas e, em alguns pontos, estas  células são móveis, permitindo a entrada do líquido proveniente do interstício para o interior do capilar. Essas válvulas possuem em sua parede externa filamentos, denominados filamentos de ancoragem. Estes estão fixados também ao tecido conjuntivo adjacente.  Os capilares não possuem válvulas internas.3

O aumento da pressão nos tecidos adjacentes promove o movimento dos filamentos com o conseqüente afastamento da sobreposição celular, o que promove a modificação de líquidos do interstício para o interior do capilar linfático.

 

O que é a técnica de drenagem linfática Manual?

A técnica de drenagem linfática manual consiste de manobras  leves, suaves e rítmicas, com movimentos de bombeios manuais  que alongam a pele e estimulam o funcionamento do sistema linfático a realizar a drenagem de forma mais eficiente. 4

O objetivo da técnica é direcionar o fluido linfático de vias edemaciadas para os linfáticos saudáveis, livres de edema. A linfa é então drenada de volta para circulação por meio de rotas alternativas. 4

 

A Drenagem Linfática Manual funciona?

Meyer, et all,5 realizaram um trabalho de exames clínicos em pacientes portadores de celulite estética (FEG) , que se baseou na aplicação da técnica de drenagem linfática manual, durante 20 sessões, 3 vezes por semana. As pacientes foram avaliadas por meio de ressonância magnética antes e depois do tratamento. A escolha do método se baseou no fato de que com esse exame, além de não ter a interferência do operador, ainda é possível observar as camadas teciduais e observar a presença de líquido.   As três pacientes submetidas ao procedimento obtiveram respostas importantes, com relação à diminuição do espessamento do tecido, à redução da quantidade de líquido no interstício e redução da engurgitação venosa. Os resultados corroboraram com outros pesquisadores que também realizaram experimentos similares, no entanto com outras formas de avaliação. As melhoras observadas no nivelamento do tecido e na diminuição das pregas,  sugerem que a retirada do excesso de líquido no interstício promove a redução do processo fibrótico o que diminui o aspecto ondulado no tecido.

Schonvvetter, et all,6 relataram que a celulite (FEG) parece estar relacionada às trocas metabólicas e ao acúmulo de líquido no interstício, o que acarreta   piora das características anatômicas. Levando-se em consideração que a técnica de drenagem linfática manual é utilizada para tratar linfedema  por prover a saída de líquidos do interstício para o sistema linfático, ela poderá também auxiliar o tratamento da celulite. As mesmas autoras realizaram pesquisa de campo no qual se objetivava a melhoria da celulite.15 pacientes concluíram o tratamento proposto. Foram realizadas 14 sessões de drenagem linfática, no entanto, apenas uma vez por semana. As autoras referiram que a utilização da técnica de DLM trouxe como benefícios, melhora da qualidade de vida, melhora da elasticidade da pele, e redução da celulite em cerca de 33% das pacientes tratadas. No entanto,  concluíram que a drenagem linfática sozinha não foi eficaz para proporcionar resultados efetivos na melhora da celulite.

É importante mencionar que a celulite ( FEG) tem causa multifatorial e  que, embora sejam causados em sua essência por um acúmulo de líquidos no interstício, apresenta diversos sinais e sintomas que também necessitam de tratamento. Além disso, o tratamento apenas uma vez na semana não é capaz de produzir resultados satisfatórios.

Kubik et all,3 fizeram um estudo comparativo entre a drenagem linfática com bandagens compressivas e exercícios de resistência com bandagens compressivas para tratar  linfedema. Utilizaram dois grupos de 20 pessoas em cada grupo e o programa de tratamento incluiu atendimentos 3 vezes por semana durante 8 semanas. Os autores concluíram que ambos os grupos obtiveram resultados satisfatórios na redução do linfedema, o que vai ao encontro dos relatos de Guyton & Hall,1 que descreveram a existência de diversos fatores que influenciam  na drenagem linfática.  São citados por eles, contração muscular, compressão externa dos tecidos, entre outras.

Vairo et all,7  fizeram uma revisão sistemática, na qual buscaram trabalhos que abordassem  a drenagem linfática manual aplicada às desordens do aparelho músculo esquelético. Como conclusão, ressaltaram a dificuldade de encontrar artigos que abordassem o tema, dificuldade de encontrar estabelecimentos de parâmetros de avaliação e comparação e a falta de conclusões dos artigos. Sugeriram trabalhos que pudessem estabelecer o numero de sessões de tratamento e a freqüência com que deve ser usada.  Esse artigo evidenciou um problema muito comum nos artigos que abordam o tema, a falta de cientificidade.

 

Por que a drenagem linfática manual funciona ?

Mislyn em 1983, citado por Kaur, et all,8  revelou que a drenagem linfática manual é um “estiramento mecânico epifascial,  que causa o aumento da freqüência de contração dos coletores. No mesmo artigo, outros autores complementam este conceito, acrescentando que ocorre um aumento na pressão dos coletores com conseqüente aumento do fluxo da linfa.

Sabe-se que diversos fatores estão envolvidos na drenagem linfática, Guyton & Hall1 citaram estes fatores, incluindo aí, as compressões externas. Isso significa que quando é exercida uma determinada força sobre os tecidos, é possível influenciar o fluxo  linfático.

Outro importante fator  a ser citado é que apenas o sistema linfático remove as proteínas do meio intersticial.1, 9  Dessa forma, se o sistema linfático não funciona adequadamente, ocorre o acúmulo  de proteína  no interstício. Como a proteína possui carga negativa, ocorre aumento da concentração de sódio, que é carregado de carga positiva, levando também ao acúmulo de água.1

Além disso, o aumento das pressões intersticiais favorecem a tração dos filamentos de ancoragem, provocando a abertura das junções endoteliais, o que facilita a captação da linfa para o capilar  linfático. A manipulação do tecido conectivo, externamente, pode manipular também os filamentos de ancoragem, com a subseqüente abertura dos capilares linfáticos, levando ao aumento da captação de carga linfática  para dentro do sistema linfático.9

 

CONCLUSÃO

Todos os trabalhos citados aqui deixam claro que o sistema linfático é muito influenciado pela técnica de drenagem linfática manual, que atende às exigências fisiologias do organismo. A técnica  consegue influenciar também outras reações  orgânicas, como a sensação de bem estar e a melhora da elasticidade da pele. No entanto, a maior dificuldade em se estabelecer critérios para a realização do trabalho consiste no desconhecimento da técnica, o que pode colocar  em risco os resultados encontrados. Dessa forma, carece-se de estudos mais direcionados, realizados por profissionais qualificados, com parâmetros melhor definidos para o alcance maior dos resultados que foram procurados.

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

1- Guyton, A.C., Hall, J. E.: Tratado de Fisiologia Médica. 9 ed. Guanabara Koogan, 1996. Cap, IV, XVI

2- Godoy, J.M.P., Godoy, M.F.G.: A New Approach to Manual Lymphatic Drainage. English Translation, Aug 2001. Pp 34,35.

3- Kubik,S. , Kretz, U. apud Foeldi, M., Foeldi, E. Foeldi textbook of Lympholgy for Physicians and Lymphedema Therapists,  2ed, Elsevier, Germany, 2006

4- THE LYMPHOEDEMA SUPPORT NETWORK: MANUAL LYMPHATIC DRAINAGE FOR PEOPLE WITH LYMPHOEDEMA pp 1-7 disponível em : http://www.nhs.uk/ipgmedia/national/lymphoedema%20support%20network/assets/manuallymphaticdrainagetherapy.pdf acesso em 09/06/2015.

5- Meyer, Patrícia Froes et al . Effects of lymphatic drainage on cellulitis assessed by magnetic resonance. Braz. arch. biol. technol.,  Curitiba ,  v. 51, n. spe, p. 221-224, Dec.  2008 .   Available from <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1516-89132008000700036&lng=en&nrm=iso>. access on  07  June  2015.  http://dx.doi.org/10.1590/S1516-89132008000700036.

6- Schonvvetter, B.; Soares, J.L.M, Bagatin, E.: Longitudinal evaluation of manual lymphatic drainage for the treatment of gynoid lipodystrophy. An. Bras. Dermatol.,  Rio de Janeiro ,  v. 89, n. 5, p. 712-718, Oct.  2014 .   Available from <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0365-05962014000500712&lng=en&nrm=iso>. access on  07  June  2015.  http://dx.doi.org/10.1590/abd1806-4841.20143130.

7- Vairo, G. L., Miller, S. J., McBrier, N. M., & Buckley, W. E.: Systematic Review of Efficacy for Manual Lymphatic Drainage Techniques in Sports Medicine and Rehabilitation: An Evidence-Based Practice Approach. The Journal of Manual & Manipulative Therapy17(3), e80–e89. 2009 Disponível em: http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC2755111/ acesso em:11/06/15.

8- Kaur, M.,  Kumar, S., Sambyal, S.,  Vij, J.: Efficacy of Manual Lymphatic Drainage on Lymphedema in Post Operative Breast Cancer Patients. PARIPEX – INDIAN JOURNAL OF RESEARCH Volume : 4 | Issue : 6 | June 2015 Disponível em: http://paripex.theglobaljournals.com/file.php?val=June_2015_1433226033__45.pdf acesso  em 11/06/2015

9- Zuther, J.E.: Lymphedema Management the compression guide For Practitioners. Ed Thieme New York ,2005.

Categories: Drenagem Linfática

Ines Cristina Silva

Fisioterapeuta do Hospital Naval Marcilio Dias Pós-graduada em acupuntura e ortopedia Formação…

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